A Solidariedade

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Era época natalícia. Estava sentado no meu banco habitual do metro que costumo apanhar, tal qual um burguês, quando vejo um senhor a entrar apressadamente pelas portas mecânicas. Por um triz o homem não foi rachado ao meio. Apesar do infortúnio daquele senhor, eu reparei que ele tinha entrado sem pagar o bilhete. Era, portanto, um execrável bandido.

Desonestidade mesmo em frente aos meus olhos, e ainda por cima no Natal. Não gostei. Até desejei que o senhor fosse apanhado por um fiscal, um daqueles que se enerva facilmente e que resolve tudo à pancada.

Surpresa minha: entra um fiscal! Um homem de fato cinzento com listas verdes, com o olhar pousado sobre o seu aparelho tecnológico, a saber, um smartphone. “Desta não escapas tu, meu menino”, pensava eu enquanto abanava a cabeça em sinal de reprovação na direção do bandido. Ajeitei o meu gracioso rabo no banco em que estava sentado, pus-me confortável, e esperei para assistir ao derradeiro ato de justiça divina.

Para meu espanto, quando o bandido vê o fiscal dirige-se imediatamente a ele. “Será que se vai armar em touro e enfaixar-se de frente contra o forcado?”, pensei eu. Se assim fosse, ótimo! De certeza haveria sangue! Saquei do meu pacote de lenços e preparei dois: um para o suor do entusiasmo, outro para limpar da minha gabardina o sangue espirrado do bandido.

“Amigo fiscal, eu não tenho bilhete”, disse o bandido. “Na verdade, nem dinheiro tenho comigo neste momento. Ainda por cima estou atrasado para ir visitar a minha filha que está internada no hospital. Não tive mesmo oportunidade de comprar bilhete… E agora?”

“Amigo, eu não sou fiscal”, respondeu… o fiscal? “Eu tenho este fato porque trabalho numa empresa de telecomunicações.”

“Como?”, pensei eu. Afinal, um não é bandido, e o outro não é fiscal? Aproximei os meus ouvidos e fiquei a escutar atentamente a conversa entre estes dois senhores.

O “bandido” continuou: “Perdi o meu trabalho recentemente, numa altura em que a minha filha já estava muito doente. Já não tenho mulher, e a minha filha não tem marido. Sou o único sustento dela, mas sem trabalho não consigo sustentar-nos aos dois. Ela agora está internada por tempo indefinido, e eu não sei bem o que fazer. Faço o que posso.”

Entretanto, os lenços que anteriormente iriam servir para limpar suor e sangue espirrado, serviam agora para afagar a minha comoção. Errei quando julguei aquele homem. Errei também quando julguei que o outro senhor era um fiscal. Errei em tudo e aprendi uma valiosa lição: não julgar.

“Amigo, não sei se está interessado, mas a empresa para a qual eu trabalho está a contratar novas pessoas. Não é um trabalho muito cansativo, e até podemos ser flexíveis em relação aos horários de trabalho. Podia continuar a cuidar da sua filha. Se quiser, eu posso telefonar agora mesmo ao meu superior para lhe marcar uma entrevista. Desta forma talvez eu possa ajudá-lo.”

Com esta última deixa convenci-me de que estava a assistir a um milagre de Natal, onde um bandido se transforma num homem honesto, e um fiscal num benfeitor. A honestidade de um foi a virtuosidade do outro, e quando estas duas características se cruzam normalmente assistimos a grandes momentos de humanidade.

Foi assim que, de modo inesperado, aprendi uma segunda, e valiosa, lição: a da solidariedade. Uma lição que só se aprende com a prática de fazer, pois na teoria do dizer ela não encontra realização.

 

texto retirado de A Teia nº3 – Natal Escaldante

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